A Primeira Mudança

Depois de aproximadamente dois anos morando de arrendatários, meus pais foram mandados embora, então era preciso procurar outro lugar para morar, quando se tem um lugar para ir não é tão grave, mas quando não tem é complicado.

Sem terreno e sem casa, casados há dois anos, só tinham a roupa do couro, eu para cuidar, e muita vontade de ter um local próprio para plantar e colher, a situação era difícil, mas todo colono sabe que só vai crescer se trabalhar do nascer ao pôr do sol todos os dias da semana.

Então a família se mudou para um lugar chamado Campinho, distante uns 10 quilômetros da morada anterior, a família era composta por três pessoas: Pai, Mãe e Eu.

Nesse novo lugar, o acordo era as plantações de “três quartas” e a criação de animais um quinto, ou seja, para colheitas da roça, para cada 4 partes, 3 eram dos meus pais e uma do patrão, com a criação, era de “um quinto”, ou seja, para cada 5 pintinhos que nascessem, 1 era dos meus pais, o mesmo valia para outras criações de penas.

Para melhor entendimento, criação era a referência para aves criadas no terreiro, galinhas, gansos, marrecos, perus, galinha de angola, num resumo simples, as aves eram chamadas de criação para efeito de divisão.

Animais, era a referência para porcos, ovelhas, gado em geral  e animais de tração, esses ou se tratava em acordo separado ou era meio a meio, para animais ou aves compradas pelos meus pais, essas eram deles e não entrariam na divisão.

Condições muito boas numa análise superficial, mas ficava menos favorável ao fazer parte do acordo que a manutenção do sítio, das cercas e as roçadas de pasto estavam incluídas no acordo, mesmo assim, o acordo foi fechado e meus pais se mudaram para o novo local que se chamava Campinho.

Mais ou menos um ano depois de estar morando em Campinho, apesar que nessa época eu tinha aproximadamente três anos, há muita coisa que eu me lembro com muita clareza, nem parece que fazem mais de 55 anos.

A casa de madeira que mais parecia um paiol ficava há uns 300 metros da estrada, e para chegar até na casa uma cancela tinha que ser aberta e uma trilha que dava acesso a casa cortava o pasto, tinha um pau de uns 50 centímetros de diâmetro com uns 2 metros atravessado sobre um pequeno córrego, e os pais orientavam para ter cuidado ao atravessar o córrego para não escorregar e cair nele.

Na trilha que cortava o pasto tinha um desvio que levava também a outra casa que existia na mesma propriedade, apesar de não ter uma cerca física, a propriedade era dividida por uma linha imaginária e que era respeitada como se houvesse uma cerca física.

De um lado a referencia era uma grande arvore e de outro lado era uma ponta de um morro, e uma linha imaginária era a referência, não se cruzava essa linha sem pedir autorização, o respeito era muito importante, sem nenhuma pressão, apenas se dizia: daqui para cá é eu que cuido e daqui para lá é você quem cuida.

Nessa época, palavras acordadas, um simples abonar com um movimento de cabeça eram consideradas afirmativas e se restasse dúvidas, bastava dizer se concordava ou não, exigir assinaturas em cartórios ou na presença de testemunhas era praticamente uma ofensa.

Cerca de arame farpado existia para evitar que os animais de grande porte cruzassem ou ficassem na estrada, pois o outro lado da estrada também era do mesmo dono, eram muitas terras, muitas mesmo.

E foi nesse lugar que comecei a viver experiências incríveis que me lembro até os dias atuais, nos textos a seguir vou escrever sobre algumas delas.