Depois que meus pais se casaram foram morar de arrendatários, ou seja, teriam que cultivar uma terra que não era deles e dar a parte da produção para o dono das terras.

Essa prática era comum para casais recém-casados na época, havia poucas opções, ou trabalhava para o sogro se ele tivesse terras e/ou plantações ou trabalhava para o pai, se ele tivesse plantações.

Quando o sogro e/ou o pai eram pobres, as opções eram trabalhar por dia ou trabalhar de arrendatário, para maior independência trabalhar de arrendatário geralmente era a melhor escolha.

E assim, meus pais começavam a vida de casados trabalhando de arrendatários, as chamadas “três quartas” e “meio a meio” eram tratadas entre o “patrão” e o arrendatário.

Quem tinha terras colocava arrendatário para que as terras produzissem e eles tivessem algum lucro com as terras, mas sempre havia aqueles mais gananciosos e mais tarde geravam problemas de divisão.

Assim, meus pais moraram aproximadamente por dois anos num local chamado Rio Novo (na época era distrito de Angelina) e foi nesse local que eu nasci.

Logo começaram a surgir as discordâncias entre o patrão e meus pais em razão da quantidade produzida e repassada, é que tudo era feito na base da palavra de homem, nessa época não se assinava nenhum papel, e a velha frase “não foi isso que combinamos” era dita com muita frequência.

Por isso, quando alguém queria desfazer algum acordo ou não era honesto o suficiente para dizer que não queria mais acusava a outra parte de não estar cumprindo o que havia sido acordado.

No interior, qualquer desacordo, por pequeno que seja, as partes brigam por uma galinha, um porco, ou um cesto de milho, e se ninguém ceder, pode chegar ao uso do facão ou da espingarda.

Tudo foi bem por aproximadamente dois anos, mas depois de uma desavença por discordar de quantidades de cada parte o patrão ordenou que meus pais procurassem outro lugar para morar.

Na verdade, ele queria colocar outro que trabalhasse por uma quantidade maior para o patrão, esse tipo de situação era cuidadosamente estudado e planejado.

Para cada casal novo que casasse, antes mesmo de casar, o noivo era procurado e tudo ficava combinado, e depois era só “criar o motivo” para dispensar o arrendatário, assim, qualquer motivo besta era motivo para mandar alguém sair da casa e ir procurar outras terras para plantar.

E assim, meu pai saiu à procura de outro lugar para arrendar e fazer novas plantações e tentar melhorar as condições de vida, o sonho era o de terras próprias para plantar e colher sem pagar por arrendamentos.

A Primeira Morada